sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Prioridade: construir o capital social

Prioridade: construir o capital social


Os descaminhos do desenvolvimento

O fracasso das recomendações do Consenso de Washington – liberalizar, privatizar e flexibilizar as relações de trabalho – impõe uma revisão urgente da teoria e da prática do desenvolvimento econômico. A experiência das duas últimas décadas evidencia amplamente que não é o maior crescimento econômico, mas a qualidade deste, que determina a medida do aumento do bem-estar. O crescimento do PIB não significa melhor qualidade de vida, em termos de saúde, educação e mais liberdade de opções.

Número crescente de estudiosos consideram o crescimento econômico como condição necessária, porém não suficiente para o desenvolvimento, que é um processo complexo e irredutível a poucas variáveis econômicas. Para Amartya Sen (1981), o desenvolvimento seria o processo de ampliação da capacidade de realizar atividades livremente escolhidas e valorizadas, o que não é conseqüência automática do crescimento econômico. Para James Wolfensohn, presidente do Banco Mundial (1996), sem desenvolvimento social concomitante, nunca haverá desenvolvimento econômico satisfatório.

Apesar dos esforços louváveis do Banco Mundial para financiar e apoiar projetos de desenvolvimento social, os resultados têm sido decepcionantes. Ignoram seus mentores a contradição fundamental inerente ao sistema de produção capitalista, cuja dinâmica de acumulação e reprodução – via busca cega de mais produtividade e lucros – tende a destruir o tecido das relações sociais. A exploração e alienação no trabalho pela divisão e subdivisão das tarefas; o desemprego tecnológico e estrutural; as migrações e o conseqüente desarraigamento de trabalhadores rurais e urbanos propagam os sintomas de anomia social – agressões, violência e criminalidade que afetam indiscriminadamente a todas as camadas da população. O ritmo e a intensidade com que progride a concentração de capital em conseqüência da corrida pela produtividade e eficiência, sem considerar os efeitos sociais negativos, não podem ser compensados por projetos paternalistas e de caridade.

A proposta alternativa parte de uma visão sistêmica, contemplando a multiplicidade de fatores intervenientes e suas relações recíprocas, recusando a visão mecânica simplista e postulando que o todo é diferente da soma das partes.

Os cientistas sociais que se debruçaram sobre a problemática dos fracassos do desenvolvimento e suas causas – positivas e negativas – têm apontado alternadamente para variáveis geográficas, políticas, étnico-raciais, entre outras para explicar os respectivos sucessos de alguns países e regiões, particularmente do hemisfério setentrional, e os fracassos do desenvolvimento no sul, nas antigas áreas e territórios colonizados. (The Economist – Roots of Development, October 5, 2002, pág.74).

Uma nova política social, em vez de procurar remediar os efeitos destrutivos da lógica da acumulação, é concebida como condição indispensável do desenvolvimento sustentável. Em todos os debates travados nos últimos anos, o conceito de capital social tem ocupado espaço crescente, devido à percepção de seus impactos na reformulação das práticas de desenvolvimento. Além da onda de democratização que varreu o mundo dos países pobres nas últimas duas décadas, criando condições favoráveis à revisão crítica das teorias convencionais, está se impondo a percepção do ser humano como ator social. Em vez de condicioná-lo por estímulos e sanções positivas e negativas, a cenoura ou o chicote do sistema de produção taylorista, procura-se trabalhar com a necessidade gregária, o espírito de cooperação e os valores de apoio mútuo e solidariedade, como base na eficiência social coletiva. No clima geral de incerteza e insegurança quanto ao futuro e, tendo em vista o baixo poder explicativo da epistemologia convencional, torna-se imprescindível à integração de novos conceitos e análises nos debates sobre desenvolvimento. Entre estes, ocupam lugares cada vez mais proeminentes o capital social e o papel da cultura.

Capital social e cultura como fatores de desenvolvimento

Estudos de economistas do Banco Mundial distinguem quatro formas básicas de capital: o natural, constituído pelos recursos naturais aproveitáveis em cada espaço geográfico-ecológico; o capital físico construído pela sociedade, tal como a infra-estrutura, as máquinas e equipamentos, o sistema financeiro; o capital humano, resultado do nível de educação, saúde e acesso à informação da população, e o capital social - conceito inovador nas análises e propostas de desenvolvimento. Ao tentar desvendar as causas da dinâmica de expansão do sistema de produção capitalista nas últimas décadas, privilegia-se a contribuição da capital social e humano para o desenvolvimento tecnológico, o aumento da produtividade e o próprio crescimento da economia.

Por ser de origem recente – as primeiras menções são da década de noventa – não há ainda uma definição precisa de capital social e a maioria dos autores recorre a definições relacionadas com suas funções, ressaltando ora aspectos da estrutura social, ora o uso desse recurso por indivíduos. Coleman (1990) trabalha com o conceito no plano individual, apontando a capacidade de relacionamento do indivíduo, sua rede de contatos sociais baseada em expectativas de reciprocidade e comportamento confiáveis que, no conjunto, melhoram a eficiência individual. No plano coletivo, o capital social ajudaria a manter a coesão social, pela obediência às normas e leis; a negociação em situação de conflito e  a prevalência da cooperação sobre a competição, tanto nas escolas quanto na vida pública, o que resultaria em um estilo de vida baseado na associação espontânea, no comportamento cívico, enfim, numa sociedade mais aberta e democrática.

Também para Putnam (1984), um dos pioneiros nos estudos sobre capital social, este se reflete no grau de confiança existente entre os diversos atores sociais, seu grau de associativismo e o acatamento às normas de comportamento cívico, tais como o pagamento de impostos e os cuidados com que são tratados os espaços públicos e os bens comuns.

Enquanto o capital humano é produto de ações individuais em busca de aprendizado e aperfeiçoamento, o capital social se fundamenta nas relações entre os atores sociais que estabelecem obrigações e expectativas mútuas, estimulam a confiabilidade nas relações sociais e agilizam o fluxo de informações, internas e externas. Em vez de controles e relações de dominação patrimonialistas, o capital social favorece o funcionamento de normas e sanções consentidas, ressaltando os interesses públicos coletivos. Enquanto as vias convencionais de formar capital humano estimulam o individualismo, a construção de capital social repercute favoravelmente na coesão da família, da comunidade e na sociedade.

B. Kliksberg (2001) ressalta o papel fundamental do Estado na criação do capital social. Citando vários estudos realizados pelo Banco Mundial e universidades norte-americanas, evidencia-se uma correlação significativa entre o grau de confiança geral e as normas de cooperação prevalecentes na sociedade com os avanços no desenvolvimento econômico e social. Como hipótese a ser testada empiricamente, afirma-se que quanto menor a polarização entre ricos e pobres maior o capital social, maior a participação em associações e projetos coletivos, maior a renda e melhores as práticas produtivas, na agricultura e na indústria. A cooperação com a administração pública melhora a qualidade dos serviços públicos e influencia positivamente o rendimento das crianças nas escolas e a eficiência dos serviços de saúde.

Fatores adversos à formação de capital social são a desigualdade na distribuição da renda e de oportunidades, o desemprego e as catástrofes naturais que levam à migrações, desarticulando a rede de relações sociais existentes e exigindo dos indivíduos grandes esforços nas tentativas de reconstrução de uma rede de relações sociais de apoio e confiança. As maiores vítimas no processo de desestruturação são as crianças, particularmente, as de famílias desorganizadas, que apresentam baixos índices de aprendizagem e elevadas taxas de evasão escolar.

Segundo A. Hirschman (1986), o capital social não se desgasta com o uso e não se esgota, mas pode ser destruído ou reduzido, aumentando a vulnerabilidade dos mais pobres e mais fracos, dos desempregados e desabrigados sujeitos às manifestações das diferentes formas de violência, agressões e delinqüência, transformando o ambiente numa situação em que o homem se torna o lobo dos outros – homo homini lupus.

Capital social e cultura

A cultura, entendida como o conjunto de conhecimentos, crenças, artes, normas e costumes adquiridos e desenvolvidos pelos seres humanos em suas relações sociais, é um fenômeno universal, embora infinitamente variada em suas manifestações concretas. Sendo a parte aprendida do comportamento humano, a cultura em seus variados aspectos confere sentido à vida dos seres humanos, que se comportam de acordo com as normas e valores codificados em sua linguagem de símbolos que, em seu conjunto, configuram o estilo de vida do grupo, da comunidade e da sociedade. Sua função básica é manter a coesão do grupo de seus portadores, resistindo às mudanças introduzidas por processos econômicos e políticos, internos e externos.

A interação com outros grupos e sociedades resulta em pressões e conflitos que têm caracterizado toda a evolução histórica da humanidade. Inovações tecnológicas e bens de consumo são mais facilmente assimilados enquanto padrões culturais que afetem a estrutura familiar e o código moral e religioso despertem mais resistência e sentimentos de solidariedade dos membros do grupo. Este tipo de coesão que se fecha contra o intercâmbio externo aproxima-se do padrão, denominado por E. Durkheim, de solidariedade mecânica, baseado na uniformidade e rigidez de conduta e suas sanções. Como conciliar a aspiração à autodeterminação e autonomia cultural de inúmeros grupos étnicos, ansiosos de preservar sua cultura e tradições, face ao avanço impetuoso da globalização da economia, rompendo todas as barreiras e impondo padrões de consumo, materiais e simbólicos únicos?

O fortalecimento e a mobilização das culturas tradicionais podem exercer um papel importante nas políticas e projetos que visem a superação do estado de pobreza e a integração de populações marginalizadas e excluídas. Mesmo desprovidas e espoliadas de bens materiais, a cultura e as tradições com seus conhecimentos acumulados e aplicados em projetos de integração social podem ter um papel fundamental. O resgate de padrões tradicionais na preparação de alimentos, elaboração de produtos de artesanato, cantos e danças pode funcionar como elemento-chave na reconstrução da identidade coletiva e do capital social. Processos de intervenção social devem visar prioritariamente o resgate da auto-estima dos grupos e populações marginalizadas, a fim de estimular sua criatividade e o espírito de cooperação. A promoção da cultura popular, a abertura de canais para sua expressão, seu cultivo nas gerações jovens (...) cria um clima de apreço genuíno por seus conteúdos, fará crescer a cultura e, com isso, devolverá a identidade aos grupos empobrecidos (Kliksberg, 2001, p.142).

A exclusão social – fenômeno típico nas sociedades periféricas neste século – se revela na fome, falta de abrigo e falta de acesso ao mercado de trabalho e tem se alastrado pelos efeitos perversos da acumulação concentradora de riquezas do próprio sistema. A democratização da cultura, através da criação de espaços culturais acessíveis às populações desfavorecidas, permite criar vias de integração. Atividades culturais podem funcionar como um sistema educativo complementar, reforçando o trabalho da escola, inclusive para adolescentes e adultos que abandonaram antes do tempo o ensino oficial. Desenvolvendo uma ampla variedade de programas, os espaços culturais podem oferecer opções alternativas de identidade, pertinência e participação social. A família, instituição social básica de integração social, seria a principal beneficiada por programas culturais, reforçando os vínculos afetivos e espirituais que contribuem à melhoria do rendimento escolar das crianças e no desenvolvimento de sua inteligência emocional e criativa. Outro aspecto positivo reside no estimulo a uma cultura de saúde preventiva, envolvendo todos os membros da família.

Diante o quadro de desagregação de famílias de deserdados, quando uma parcela crescente é chefiada pelas mães com numerosa prole a cuidar, os espaços culturais podem contribuir ao fortalecimento dos laços, internos e externos, desta instituição e de diferentes formas de associação e cooperação para enfrentar problemas comuns.

Não devemos, contudo, alimentar ilusões quanto aos efeitos milagrosos da participação em espaços culturais. A cultura oficial, tanto no sistema educativo quanto na vida profissional, enfatiza o individualismo e o desinteresse pelo bem-estar coletivo. Estimula o consumo afluente e o enriquecimento individual como principais objetivos na vida, o que enfraquece o tecido social e leva à sua desagregação. A predominância de valores contrários à solidariedade e cooperação resulta em expansão das redes de corrupção e delinqüência em todos os níveis da sociedade.

A cultura constitui o âmbito onde a sociedade gera valores e os transmite de geração a geração. Valores positivos favorecem a equidade e a justiça social, na medida em que permeiem os grupos e as instituições sociais, desde a escola e os lugares de trabalho até os tribunais de justiça. Constituem fatores propícios ao espírito empreendedor coletivo e assim, ao desenvolvimento democrático e participativo. São também esses valores que têm potencial de atrair jovens das classes mais abastadas para que engajem em atividades de voluntariado e de militância em ONGs e movimentos sociais, inspirando uma consciência cívica fundamental para a formação da sociedade civil capaz de arcar com uma parte das responsabilidades do desenvolvimento social, em estreita colaboração e parceria com os poderes públicos.

Paradigmático a este respeito é a criação de uma Comissão Governamental de Valores Humanos, em 1998, na Noruega, (KLIKSBERG, 2001, pág. 146), com os seguintes objetivos...
  • criar na sociedade uma consciência crescente sobre os valores e os problemas éticos;
  • contribuir para um maior conhecimento do desenvolvimento de valores humanos em nossa cultura contemporânea;
  • identificar desafios atuais em matéria ética da sociedade e discutir possíveis respostas;
  • promover a integração dos diferentes setores a este debate.

A colaboração entre o poder público e a sociedade civil afigura-se como fator fundamental para mobilizar e liberar as forças criativas latentes para a luta por um desenvolvimento sustentável em nossa sociedade.

Fonte
RATTNER, Henrique. Prioridade: construir o capital social. Disponível em: <http://www.mundodigital.unesp.br/sulamericana/materias/6prioridadeconstruirocapitalsocial-henriquerattner.pdf>. Acesso em: 04 maio 2009.

Desastres decorrentes da poluição das águas

Alguns desastres sérios de poluição das águas ocorreram, como em Minamata, uma cidade situada na Baía de Minamata, no Japão. Em 1956, uma criança de cinco anos foi hospitalizada por apresentar distúrbios neurológicos, como problemas de fala e locomoção, além de dificuldades na ingestão de alimentos. Nos dias seguintes, vários casos similares surgiram, parecendo ser uma epidemia, assustando a população e as autoridades governamentais, que pensavam que a doença fosse contagiosa. 

 

A pesquisa para caracterizar e determinar as causas levou mais de dez anos, até confirmar que o problema estava sendo causado pelos efluentes de uma fábrica de acetaldeído, despejados sem tratamento nas águas da baía. Os efluentes continham metil-mercúrio, que, apesar das baixas concentrações nas águas da Baía de Minamata, foi concentrado ao longo da cadeia alimentar e chegou a atingir 40 ppm – partes por milhão – nos peixes, que eram a dieta básica da população. 

 

A Doença de Minamata, causada pela ingestão de peixes com altas concentrações de metil-mercúrio, afetava o sistema nervoso central, provocando dormência e sensibilidade diminuída nas extremidades – pés e mãos –, dificuldades de coordenar os movimentos dos pés e das mãos, dificuldade para articular as palavras – até a perda da fala –, dificuldade de concentração, fraqueza e fadiga constantes, perda gradual da visão e audição, e finalmente coma e morte. Mais de 50 pessoas morreram e cerca de 500 apresentaram desordens neurológicas, e as indenizações pagas às vítimas da doença ultrapassaram 60 milhões de dólares. 

Conceito e evolução da biosfera

Conceito e evolução da biosfera
 

Conceito

É a região do planeta que encerra os seres vivos e na qual a vida é possível de uma maneira permanente.
 
Entretanto, considerando-se a totalidade do globo terrestre, esta região não excede a uma fina camada de alguns poucos quilômetros, englobando parte da litosfera, parte da hidrosfera e parte da atmosfera.

Obs.: São chamadas de regiões parabiosféricas aquelas nas quais a vida não é permanente, mas sim esporádica. Ex.: regiões polares e, a partir de 1969, a lua.

A biosfera, por apresentar componentes bióticos - seres vivos - e abióticos - seres inanimados - trocando matéria e energia, pode ser considerada um enorme ecossistema. A rigor, a biosfera deve ser encarada como tal, mas, devido as suas proporções gigantescas, costuma ser dividida em ecossistemas menores, conforme a situação que ocupam em relação aos três grandes substratos de nosso planeta. 

Assim, a litosfera é o substrato sólido do epinociclo - biociclo do meio terrestre - e a hidrosfera o substrato líquido de dois biociclos importantes; o talassociclo - meio marinho - e o limnociclo - meio dulcícola. A atmosfera interfere diretamente no epinociclo e indiretamente, pela difusão dos gases nela existentes, no talassociclo e no limnociclo.


Evolução da Biosfera   

A biosfera formou-se no curso de uma longa evolução, sendo seqüência de longos processos de adaptação entre as espécies e o meio ambiente. Como ecossistema, a biosfera é um conjunto altamente dinâmico que tende a auto-regulação, capaz de resistir, pelo menos dentro de certos limites, às modificações do meio ambiente e às bruscas variações de densidade das populações causadas por agentes naturais. Considerando-se a evolução da biosfera, podemos considerá-la como resultado da ação de dois grupos de agentes: os físicos e os biológicos.

São dois os principais agentes físicos que interferem na evolução da biosfera: a água e a luz. A água por ser condição essencial para existência da vida, a luz por ser a fonte primária de energia de todos os componentes bióticos.

É sabido que a ação dos agentes biológicos sobre a biosfera depende das condições gerais - físicas, químicas, etc. - impostas pelo meio ambiente. Assim, por seleção natural, os componentes bióticos da biosfera vão se adaptando às condições determinadas pelos agentes abióticos somadas às exigências impostas pela comunidade da qual fazem parte.

Situação de equilíbrio atualmente alcançado pela Biosfera
  

A biosfera alcançou, através do tempo, um equilíbrio dinâmico que se caracteriza por uma elevada funcionalidade e uma grande estabilidade. Como resultado verifica-se um perfeito equilíbrio, tanto no n0 de indivíduos como no nº de espécies. A manutenção desse equilíbrio de numerosos fatores dentre os quais citamos: - densidade populacional; competição intraespecífica e interespecífica; - mortalidade devido ao predatismo e outras doenças; - valor adaptativo das populações - fundo genético -; - modificações do meio ambiente; - etc.


As populações que integram as comunidades da biosfera, no início de seu desenvolvimento, possuem uma taxa de natalidade maior que a taxa de mortalidade e crescem quase em progressão geométrica. Entretanto, este crescimento retarda, quando a população, ao atingir um determinado tamanho, começa a sentir as influências dos fatores limitantes. A partir desse momento, o seu tamanho passa a oscilar, aumentando ou diminuindo, mas sempre flutuando ao redor de um valor médio. Neste caso, a população atingiu um equilíbrio que é mantido pela equivalência de suas taxas de natalidade e mortalidade. Se um dos fatores limitantes aumentar de intensidade, ele poderá tirar a população de seu equilíbrio. Supondo-se, por exemplo, que sobrevenha sobre a população uma grave doença epidêmica, tornando a taxa da mortalidade maior que a de natalidade.   

Esta doença terá um caráter seletivo; no caso da população apresentar uma variabilidade genética capaz de resistir a esta pressão seletiva, a população poderá se recuperar e, depois de algum tempo, voltar ao seu equilíbrio. A sobrevivência da população será mantida, porque os indivíduos com o genótipo que confere a resistência à doença vão continuar a se reproduzir e garantir a natalidade; seus filhos herdarão a resistência e poderão, também, se reproduzir e, assim, a população se manterá.

A instabilidade ambiental apresenta desafios aos indivíduos de uma espécie, a uma comunidade ou mesmo ao ecossistema todo. Para se manterem em harmonia com um ambiente em processo de mudança - provocada por agentes bióticos ou abióticos -, os organismos não só precisam ser adaptados, mas adaptáveis. As espécies, além de possuírem variabilidade genética, apresentam também a capacidade de produzir variedades genéticas por mutação. Alguns variantes genéticos podem tornar-se menos freqüentes ou serem eliminados; outros podem tornar-se mais freqüentes e serem fixados como uma nova norma para a população de uma espécie que, por sua vez, provocará uma reação em cadeia nas comunidades das quais venha a participar, selecionando aqueles mais adaptados e conferindo ao ecossistema e a biosfera um novo equilíbrio dinâmico - climax.

Concluindo, podemos dizer que as populações naturais, através de suas múltiplas interações com outras populações e com as condições físicas do ambiente, mantêm-se estáveis e, conseqüentemente, a biosfera também. 

Fonte 
SCHÜÜR, Germano; SELBACH, João Carlos. Equilíbrio da Biosfera. Disponível em: <www.photographia.com.br>. Acesso em: 17 nov. 2005.
 

A relação comércio e meio ambiente

Como já dizia Marx, o objeto geral de trabalho do homem é a terra. O homem deve se comportar na natureza como um elemento da natureza. Assim como os demais animais, o homem interfere na natureza, mas, diferentemente dos animais, ele pode antecipar suas ações sobre o meio ambiente de forma consciente.

Em função disso, a sociedade não pode ser compreendida de modo dissociado dos processos naturais. Apesar de ser responsável pelas modificações do planeta, existe uma interdependência ancestral em relação aos ecossistemas. É deles que a sociedade extrai sua alimentação e exerce sua atividade econômica. Sendo assim, a atividade econômica depende também do meio ambiente e, em função disto, causa efeitos sobre ele.  
 

O uso dos diversos ecossistemas de maneira sustentável, usufruindo dos recursos naturais de forma a não extingui-los, gera vantagens econômicas que podem proporcionar ganhos a toda uma nação. A importância da preservação dos ecossistemas, ou da biodiversidade, justifica a existência de uma gestão eficiente dos recursos naturais, primando pela sua sustentabilidade. (MELO; SILVA, 2001, p.173)


O debate sobre a relação comércio internacional e meio ambiente foi iniciado há muitos anos, mas tem ganhado crescente atenção no cenário internacional em função, justamente, de uma provável insustentabilidade ambiental. O principal debate nos fóruns internacionais diz respeito à compatibilidade entre fluxos comerciais e a proteção do meio ambiente (LICHTINGER, 2003). A questão se tornou mais complexa após a globalização das economias e o aumento dos fluxos comerciais.
 

O comércio internacional é uma das forças motrizes da atividade econômica, a qual gera um impacto sobre o meio ambiente. O setor comercial é responsável pelos preços e conseqüentemente pela concorrência externa; portanto, um estimulador da produção. Sendo assim, é um instrumento promotor do crescimento econômico. Por gerar impactos na economia, o comércio internacional automaticamente tem efeitos sobre o meio ambiente. (Idem, ibidem)

O crescimento das discussões sobre a referida relação também estão apoiadas no chamado desenvolvimento sustentável, definido na ECO92 como um modelo econômico, capaz de gerar riqueza e bem-estar e, ao mesmo tempo, promover a coesão social e impedir a destruição da natureza. O desenvolvimento sustentável abrange os aspectos econômico - crescimento do Terceiro Mundo -, social - integração e solidariedade entre os Hemisférios Norte e Sul - e ambiental - preservação dos bens mundiais de todos e regeneração dos recursos naturais.  
  
Existe uma preocupação mundial com a ampliação do livre comércio, pois este, não leva em consideração a origem dos bens comercializados (Idem, ibidem). Em outras palavras, os fluxos de investimentos e o aumento da produção poderiam voltar-se contra o meio ambiente, estimulados pelas demandas externas por bens oriundos da natureza. Estes, tendo um custo de produção relativamente baixo, seriam competitivos no mercado internacional e seriam os principais produtos geradores de lucros; justamente por isso, os estímulos à produção se direcionariam para esta espécie de bens. 

Isto tende a fazer com que a extração de produtos oriundos da natureza aumente em um patamar tão alto, que causaria danos ao meio ambiente. Por isso, pode-se dizer que o comércio internacional gera efeitos ou influência na natureza; neste caso, negativamente.


A problemática   
 

A exploração dos recursos naturais tem sido crescente e encontra-se num patamar muito elevado atualmente; principalmente se estes produtos estão destinados ao comércio internacional. Esta situação força para baixo o preço dos bens primários, que possuem, por exemplo no Brasil, um montante de 70% destinado à exportação. A queda dos preços faz com que se busque ampliar a oferta destes produtos a cada ciclo para se obter um montante de recursos semelhantes. (GUDYNAS, 2002)

A exportação de commodities do Brasil corresponde a 46,9% das exportações. Isto faz com que o país tenha um alto grau de dependência da exploração ambiental ou do aumento da exploração na medida em que os preços caem e, conseqüentemente, acumulam o custo da depredação para as gerações futuras. (DIAS, 2002)

Já existem alertas em todo o mundo enfocando os fatores negativos da perda da biodiversidade. A perda da diversidade biológica envolve aspectos sociais, econômicos, culturais e científicos. (Idem, Ibidem)
Os principais processos responsáveis pela perda da biodiversidade são...

 

1-     Perda e fragmentação dos habitats.

 

2-     Introdução de espécies e doenças exóticas.

 

3-     Exploração excessiva de espécies de plantas e animais. 

 

4-     Uso de híbridos e monoculturas na agroindústria e nos programas de reflorestamento.

 

5-     Contaminação do solo, água e atmosfera por poluentes.

 

6-     Mudanças climáticas. As inter-relações das causas de perda de biodiversidade com a mudança do clima e o funcionamento dos ecossistemas apenas agora começam a ser vislumbradas. (DIAS, 2002)

 

São três os principais motivos que tornam importante que haja preservação da biodiversidade...


é considerada responsável pelo equilíbrio de todos os ecossistemas;

representa um enorme potencial econômico, em função dos significativos avanços da biotecnologia e

atualmente, [acredita-se] que a biodiversidade esteja se decompondo, principalmente ao observar-se a constante extinção de espécies. (Idem, ibidem)

Todas as economias do mundo passam a estar diante de um dilema cada vez mais atenuante, uma vez que, têm que optar entre a preservação de sua biodiversidade ou o comprometimento ainda maior de seus saldos comerciais.

 

Atualmente, a crescente importância atribuída ao mercado na gestão dos fluxos comerciais, o qual não analisa a exacerbação dos recursos naturais, tem contribuído para um desenvolvimento longe da sustentabilidade. Já é possível evidenciar alguns dos prováveis limites à sustentação do atual modelo de desenvolvimento (MERICO, 1996, p.23)...

 

1-      Apropriação humana dos produtos gerados pela fotossíntese: com a possível duplicação da população humana em aproximadamente 30 anos a apropriação humana poderá chegar a 80% dos produtos gerados pela fotossíntese, não restando energia suficiente para a manutenção dos ecossistemas.

 

2-      Aquecimento global: a intermitente utilização de combustíveis fósseis libera uma quantidade enorme de CO2, alterando o clima do planeta.

 

3-      A ruptura da camada de ozônio: isso ocorre em função da liberação de CFC na atmosfera. Mais de um milhão de toneladas são jogados na atmosfera todo o ano.

 

4-      A desertificação: trata-se da erosão acelerada dos solos em função do negligenciamento [sic] humano e trará, no futuro, perda da produtividade agrícola.

 

5-      A extinção da biodiversidade: sem ela, simplesmente não existe uma forma de sustentar os processos econômicos e sociais.


Uma grande diferença entre os produtos gerados pela natureza e os gerados pela indústria são os custos de produção. Não há um mercado que gere um preço aos produtos naturais; eles têm custo zero. (Idem, p.35) Já, no mercado internacional, muitos destes bens possuem um valor significativo, fator este que estimula a sua extração ou produção pelos segmentos da sociedade, pois as perspectivas de lucro eram otimizadas.   

A questão torna-se ainda mais complexa se o modelo de desenvolvimento permite que estas relações de mercado comandem estas relações entre o Homem e o meio ambiente. 

O estímulo proporcionado pelas vantagens comparativas em países detentores de vastos recursos naturais e, ao mesmo tempo, dependentes de bens manufaturados e/ou de luxo, pode acelerar o processo de degradação do meio ambiente.

Têm-se como exemplos muitos países ou regiões que se valeram de vantagens oriundas dos recursos naturais para garantir seus fluxos comerciais e causaram significativos problemas ao meio ambiente em particular. Trata-se dos casos que serão pesquisados e analisados para justificar o caráter nocivo das vantagens comparativas ao meio ambiente [...].

A Serra do Navio, que teve sua exploração, segundo Brito, comandada pelo projeto de exploração do manganês na década de 70, encontra-se atualmente degradada. Neste período, relatórios divulgados pela ICOMI registravam a existência de uma reserva de 35 milhões de toneladas, das quais, aproximadamente 90% foram destinadas ao exterior. Em 1997, a ICOMI anunciou que as jazidas esgotaram-se; restou apenas o resíduo do manganês. Acabou-se o modelo de desenvolvimento para a região da Serra do Navio, pois este não possuía o caráter de sustentabilidade, mas sim, [valia-se] de vantagens proporcionadas pela natureza - abundância de recursos com custo zero -, os quais findaram-se.



A Costa Rica também não soube fazer o manejo adequado da sua biodiversidade. A destruição contínua de floresta esgotou os recursos do país. Enquanto as florestas eram derrubadas e exportadas, o país apresentava índices de crescimento significativos, porém insustentáveis. Segundo Solorzano, a exaustão dos recursos cresceu em média 6,4% ao ano chegando a exceder o PIB do país e ultrapassando a capacidade de recuperação. Quando os recursos naturais começaram a atingir seus limites, os índices de crescimento quase que desapareceram.   

  

A ilha de Kiribati é o caso mais importante, pois a gravidade da sua situação não está somente condicionada à sua política de desenvolvimento. Kiribati será a primeira ilha a desaparecer do mapa em função do derretimento das geleiras causado pelo desrespeito do mundo todo para com o meio ambiente. Particularmente, por muitas décadas, a exploração e exportação do fosfato garantiram o suprimento de manufaturados necessário aos habitantes da ilha, bem como, a acumulação de capital. O minério acabara e a ilha busca subsistir produzindo sal, pescado e artesanato, pois não canalizaram a renda gerada pelo fosfato no fomento de outros setores. A ilha de Kiribati encontra-se hoje com o meio ambiente, que nunca foi rico, em condições ainda piores, sem contar na queda da atividade econômica. (FELIX, 2001) 

Seguindo a mesma problemática encontra-se a Indonésia, valendo-se de suas florestas como principal meio de sustentação. Em função disto, a degradação é tão intensa que, até 2005, as florestas vão desaparecer de Sumatra e, até 2010, de Kalimantan. A demanda externa crescente, bem como os preços, são os principais estímulos à exploração das florestas de forma descontrolada (LARMER; SENO, 2003). O comprometimento futuro da economia do país será inevitável, pois não haverá mais florestas para serem exploradas, ou seja, a principal fonte geradora de renda acabará. 

[...]


  
 

Fonte 
DALLEMOLE, Dilamar. Vantagens comparativas e degradação ambiental. Movendo Idéias, Belém, v. 8, n. 14, p. 54-59, nov. 2003. Disponível em: <www.nead.unama.br>. Acesso em: 22 ago. 2007.